Sergipanos vítimas de tráfico humano fogem de trabalho escravo digital no exterior
Jovens foram atraídos por falsa oferta de emprego no Camboja e relatam jornadas de até 18 horas sob ameaças - Foto: Reprodução
Dois jovens de Aracaju, de 25 e 26 anos, estão entre os 23 brasileiros que afirmam ter sido vítimas de uma rede internacional de tráfico humano e trabalho escravo digital. O grupo foi atraído por falsas propostas de emprego com salários em dólar e acabou submetido a uma rotina de exploração no exterior.
Atualmente, os brasileiros estão abrigados em uma residência segura mantida por uma organização que presta assistência a vítimas de tráfico humano. Eles chegaram ao local após conseguirem escapar dos criminosos e aguardam apoio para retornar ao Brasil.
Um dos sergipanos, que não teve o nome divulgado por motivos de segurança, contou que aceitou a proposta acreditando que teria melhores condições de vida. Segundo ele, a oferta era para trabalhar como segurança no Camboja e foi apresentada como uma oportunidade de emprego regular.
A realidade encontrada no país, no entanto, teria sido diferente. De acordo com o relato, os brasileiros eram obrigados a trabalhar por cerca de 18 horas por dia e permaneciam sob ameaças. Eles teriam sido forçados a aplicar golpes por telefone contra outras pessoas, principalmente brasileiros.
A situação se agravou depois que uma operação policial no Camboja identificou o local onde o grupo estava. Segundo o relato, os brasileiros foram levados pelos criminosos para Madagascar, na África Oriental.
Já no país africano, os trabalhadores conseguiram escapar e buscaram ajuda. Sem documentos e temendo represálias, foram acolhidos por uma organização que atende pessoas vítimas de tráfico humano.
A ativista Cíntia Meirelles, da ONG The Exodus Road, informou que uma representante local da organização foi mobilizada para garantir um local protegido aos brasileiros.
Segundo ela, o grupo está atualmente em segurança, mas ainda precisa de assistência oficial para conseguir retornar ao Brasil.
Famílias aguardam retorno
A situação também preocupa os familiares dos dois jovens sergipanos. Um parente de uma das vítimas, que preferiu não ser identificado, contou que a família vive momentos de angústia desde que tomou conhecimento do caso.
A principal preocupação, segundo os familiares, é conseguir a emissão urgente da Autorização de Retorno ao Brasil (ARB), documento necessário para viabilizar o embarque dos jovens de volta ao país.
Polícia Federal acompanha o caso
A Polícia Federal em Sergipe informou que tomou conhecimento da situação dos dois brasileiros e encaminhou o caso às instâncias responsáveis dentro da própria corporação e ao Ministério das Relações Exteriores.
O Itamaraty também confirmou que acompanha o grupo. Por meio da Embaixada do Brasil em Maputo, responsável pela assistência consular em Madagascar, o governo brasileiro mantém contato com as autoridades locais e com a Interpol.
O Ministério das Relações Exteriores informou ainda que presta assistência consular aos brasileiros, mas não divulga informações específicas sobre casos individuais por questões de privacidade e em respeito à legislação brasileira.