03/10/2025 16:12h - Gaza - Mundo

Trump dá ultimato ao Hamas: aceitar plano de paz para Gaza até domingo ou 'enfrentar o inferno'

Hamas aceita plano de paz de Trump para Gaza, com troca de reféns e fim imediato dos combates - Foto: EPA/Shutterstock

O Hamas aceitou nesta sexta-feira (3/10) o plano de paz dos Estados Unidos para Gaza, horas depois do presidente americano Donald Trump dar um ultimato ao grupo para aceitar a proposta ou enfrentar "o inferno". O plano propõe o fim imediato dos combates e a libertação, em até 72 horas, de 20 reféns israelenses mantidos vivos pelo Hamas – bem como dos restos mortais de reféns que se acredita estarem mortos – em troca de centenas de moradores de Gaza detidos por Israel. "O Hamas aprecia os esforços árabes, islâmicos e internacionais, bem como os esforços do presidente dos EUA, Donald Trump, visando interromper a guerra na Faixa de Gaza, garantir uma troca de prisioneiros, permitir a entrada imediata de ajuda humanitária, rejeitar a ocupação da Faixa e rejeitar o deslocamento de nosso povo palestino", escreveu o grupo em uma nota oficial. "Nesse contexto, e de forma a alcançar o fim da guerra e a retirada completa da Faixa de Gaza, o movimento anuncia sua aprovação da libertação de todos os prisioneiros da ocupação — tanto os vivos quanto os restos mortais dos mortos — de acordo com a fórmula de troca estabelecida na proposta do presidente Trump, desde que sejam garantidas condições adequadas para o processo de troca", completa o grupo. O Hamas disse ainda estar pronto "para se envolver imediatamente, por meio de mediadores, em negociações para discutir os detalhes" do plano de paz. O grupo afirmou também estar de acordo com entregar a administração da Faixa de Gaza a um órgão palestino de tecnocratas independentes, com o apoio de partidos árabes e islâmicos. Mais cedo nesta sexta-feira, Trump escreveu em sua rede social Truth Social que um acordo deveria ser fechado até as 18h de domingo, pelo horário de Washington (19h em Brasília). "Se este acordo de ÚLTIMA CHANCE não for alcançado, um INFERNO como nunca visto antes se instalará contra o Hamas. HAVERÁ PAZ NO ORIENTE MÉDIO DE UMA FORMA OU DE OUTRA", escreveu Trump na postagem na rede Truth Social. Acredita-se que 48 reféns ainda estejam detidos em território palestino pelo grupo armado, dos quais apenas 20 estariam vivos. O plano de 20 pontos, acordado por Trump e pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e anunciado por ambos na Casa Branca na segunda-feira (29/9), também prevê que o Hamas não terá nenhum papel na governança de Gaza e deixa a porta aberta para um eventual Estado palestino. No entanto, Netanyahu posteriormente reafirmou sua oposição de longa data a um Estado palestino. "Não está escrito no acordo. Dissemos que nos oporíamos fortemente a um Estado palestino", afirmou em uma declaração em vídeo logo após o anúncio. O plano estipula que, assim que ambos os lados concordarem com a proposta, "ajuda total será enviada imediatamente para a Faixa de Gaza". Também descreve um plano para a governança futura de Gaza, afirmando que um "comitê palestino tecnocrático e apolítico" governará temporariamente "com o acompanhamento e a supervisão de um novo órgão internacional de transição, chamado Conselho da Paz", que, segundo o planejamento, será liderado por Trump. Líderes europeus e do Oriente Médio receberam bem a proposta. Em uma declaração conjunta, os ministros das relações exteriores dos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Egito, Jordânia, Turquia, Indonésia e Paquistão afirmaram estar prontos para dialogar com os EUA para finalizar e implementar o acordo. Segundo esses países, a pacificação deve levar a uma "solução de dois Estados, na qual Gaza esteja totalmente integrada à Cisjordânia em um Estado palestino". A Autoridade Palestina, que governa partes da Cisjordânia ocupada por Israel, classificou os esforços do presidente americano como "sinceros e determinados". O exército israelense lançou uma campanha em Gaza em resposta ao ataque liderado pelo Hamas ao sul de Israel em 7 de outubro de 2023, no qual cerca de 1,2 mil pessoas foram mortas e outras 251 foram feitas reféns. Pelo menos 66.288 pessoas foram mortas em ataques israelenses em Gaza desde então, de acordo com o Ministério da Saúde do território, administrado pelo Hamas. O que diz o plano divulgado pela Casa Branca: Gaza será uma zona desradicalizada e livre de terrorismo que não represente ameaça a seus vizinhos. Gaza será reurbanizada em benefício do povo de Gaza, que já sofreu mais do que suficiente. Se ambos os lados concordarem com esta proposta, a guerra terminará imediatamente. As forças israelenses recuarão para a linha acordada para preparar a liberação de reféns. Durante esse período, todas as operações militares, incluindo bombardeios aéreos e de artilharia, serão suspensas, e as linhas de batalha permanecerão congeladas até que sejam cumpridas as condições para a retirada completa e gradual. Dentro de 72 horas após Israel aceitar publicamente este acordo, todos os reféns, vivos e mortos, serão devolvidos. Após a liberação de todos os reféns, Israel libertará 250 prisioneiros com pena de prisão perpétua, além de 1.700 moradores de Gaza detidos após 7 de outubro de 2023, incluindo todas as mulheres e crianças detidas naquele contexto. Para cada refém israelense cujos corpos forem libertados, Israel libertará os corpos de 15 moradores de Gaza. Depois que todos os reféns forem liberados, os membros do Hamas que se comprometerem com a coexistência pacífica e desmantelarem suas armas receberão anistia. Membros do Hamas que desejarem deixar Gaza terão passagem segura para os países de destino. Após a aceitação deste acordo, será enviado ajuda significativa para a Faixa de Gaza. No mínimo, as quantidades de ajuda serão compatíveis com o que foi incluído no acordo de 19 de janeiro de 2025 sobre ajuda humanitária, incluindo a reabilitação de infraestrutura (água, eletricidade, esgoto), a reabilitação de hospitais e padarias, e a entrada de equipamentos necessários para remover escombros e abrir estradas. A entrada de distribuição e ajuda na Faixa de Gaza ocorrerá sem interferência de qualquer uma das partes, por meio das Nações Unidas e suas agências, e do Red Crescent (Crescente Vermelho, em tradução livre, a versão da Cruz Vermelha usada em países de maioria muçulmana), além de outras instituições internacionais não associadas a nenhuma das partes. A abertura do posto de passagem de Rafah em ambas as direções estará sujeita ao mesmo mecanismo implementado no acordo de 19 de janeiro de 2025. Gaza será governada sob uma administração transitória temporária de um comitê palestino tecnocrático e apolítico, responsável pela gestão diária dos serviços públicos e das prefeituras para a população de Gaza. Este comitê será composto por palestinos qualificados e especialistas internacionais, com supervisão de um novo órgão internacional de transição, o "Conselho da Paz", que será liderado e presidido pelo presidente Donald J. Trump, com outros membros e chefes de Estado a serem anunciados, incluindo o ex-primeiro-ministro Tony Blair. Este órgão estabelecerá a estrutura e administrará o financiamento para a reconstrução de Gaza até que a Autoridade Palestina conclua seu programa de reformas, conforme delineado em várias propostas, incluindo o plano de paz do Presidente Trump em 2020 e a proposta saudita-francesa, e possa retomar o controle de Gaza de forma segura e eficaz. Este órgão seguirá os melhores padrões internacionais para criar uma governança moderna e eficiente, que sirva ao povo de Gaza e atraia investimentos. Um plano de desenvolvimento econômico de Trump para reconstruir e energizar Gaza será criado por meio da convocação de um painel de especialistas que ajudaram a dar origem a algumas das prósperas cidades modernas e milagrosas do Oriente Médio. Muitas propostas de investimento bem pensadas e ideias de desenvolvimento interessantes foram elaboradas por grupos internacionais bem-intencionados e serão consideradas para sintetizar as estruturas de segurança e governança necessárias para atrair e facilitar esses investimentos que criarão empregos, oportunidades e esperança para o futuro de Gaza. Será criada uma zona econômica especial, com tarifas e acesso preferenciais a serem negociados com os países participantes. Ninguém será forçado a deixar Gaza, e aqueles que desejarem sair poderão fazê-lo livremente e retornar quando quiserem. Será incentivada a permanência das pessoas, oferecendo-lhes a oportunidade de construir uma Gaza melhor. O Hamas e outras facções concordam em não ter qualquer papel na governança de Gaza, direta, indireta ou de qualquer forma. Toda infraestrutura militar, terrorista e ofensiva, incluindo túneis e instalações de produção de armas, será destruída e não reconstruída. Haverá um processo de desmilitarização de Gaza sob a supervisão de monitores independentes, que incluirá a desativação permanente de armas por meio de um processo acordado de descomissionamento, apoiado por um programa de recompra e reintegração financiado internacionalmente, todos verificados pelos monitores independentes. A Nova Gaza estará totalmente comprometida com a construção de uma economia próspera e com a coexistência pacífica com seus vizinhos. Uma garantia será fornecida pelos parceiros regionais para assegurar que o Hamas e as facções cumpram suas obrigações e que a Nova Gaza não represente ameaça a seus vizinhos ou à sua população. Os Estados Unidos trabalharão com parceiros árabes e internacionais para desenvolver uma Força Internacional de Estabilização temporária (ISF, na sigla em inglês) temporária, a ser imediatamente implantada em Gaza. A ISF treinará e dará suporte às forças policiais palestinas selecionadas em Gaza, e consultará Jordânia e Egito, que possuem ampla experiência na área. Essa força será a solução de segurança interna de longo prazo. A ISF trabalhará com Israel e Egito para ajudar a proteger áreas fronteiriças, junto às novas forças policiais palestinas treinadas. É fundamental impedir a entrada de munições em Gaza e facilitar o fluxo rápido e seguro de bens para reconstruir e revitalizar o território. Um mecanismo de resolução de conflito será acordado entre as partes. Israel não ocupará nem anexará Gaza. À medida que a ISF estabelecer controle e estabilidade, as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) se retirarão com base em padrões, marcos e prazos vinculados à desmilitarização, acordados entre IDF e ISF, os garantidores e os Estados Unidos, com o objetivo de garantir uma Gaza segura, que não represente ameaça a Israel, ao Egito ou aos seus cidadãos. Na prática, as Forças de Defesa de Israel (IDF, da sigla em inglês) transferirão progressivamente o território de Gaza que ocupam para a Força Internacional de Estabilização (ISF), conforme acordo que farão com a autoridade transitória, até se retirarem completamente de Gaza, exceto por uma presença em perímetro de segurança que permanecerá até que Gaza esteja devidamente segura contra qualquer ameaça terrorista ressurgente. Caso o Hamas adie ou rejeite esta proposta, a operação acima, incluindo a operação de ajuda ampliada, prosseguirá nas áreas livres de terrorismo entregues pela IDF à ISF. Será estabelecido um processo de diálogo inter-religioso baseado nos valores de tolerância e coexistência pacífica, para tentar mudar mentalidades e narrativas de palestinos e israelenses, enfatizando os benefícios da paz. À medida que o redesenvolvimento de Gaza avançar e o programa de reformas da Autoridade Palestina for executado fielmente, as condições poderão finalmente estar reunidas para um caminho confiável rumo à autodeterminação e à criação de um Estado palestino, reconhecido como aspiração do povo palestino. Os Estados Unidos estabelecerão um diálogo entre Israel e os palestinos para definir um acordo sobre um horizonte político de coexistência pacífica e próspera. Por Kathryn Armstrong

Fonte: BBC News

Notícias relacionadas