14/10/2026 18:37h - Rondônia - Policial
Franquia e dentista são alvos de ação milionária por esquema que causou danos a pacientes em RO
Ação do MP-RO e da Defensoria aponta que empresa atraía pessoas de baixa renda, prestava serviços de má qualidade e acionava a Justiça contra clientes que interrompiam pagamentos - Foto: Vânia Gonçalves

Na mesma época, a paciente também chegou a fazer um contrato para o filho pôr um aparelho dentário, mas ele começou a apresentar inchaço e feridas na boca. A mãe foi em outro dentista e recebeu a notícia que o aparelho tinha sido colocado de forma errada.
Por não se sentir segura para concluir o tratamento e ser cobrada para refazer os procedimentos malsucedidos, Vânia decidiu não pagar mais pelo tratamento. A clínica entrou na Justiça cobrando os valores e há mais de um ano a mulher está com as contas bloqueadas com valores que não consegue retirar.
De acordo com a Ação Civil Pública, o mesmo padrão se repetia com outros clientes da clínica ouvidos pelo g1.
“Eu estou pagando R$ 4 mil de um dente que era para eles fazerem canal e eles foram obturar um lado do dente e deixou o outro sem obturar. Aí necrosou dentro, teve que fazer canal, teve que fazer tudo”, declarou Marcos Venâncio de Lima ao g1. Na época, o paciente sofreu com muitas dores, refez o tratamento em outra clínica e teve a conta bloqueada.
"Eu perdi a maioria dos meus dentes, fui lesada e não tenho condições de pôr a prótese dentaria", afirma Tatiane Lima de Cruz. A consumidora compareceu na clínica para realizar uma limpeza e denuncia que teve os dentes quebrados durante o procedimento.
A clínica localizada em Porto Velho e seu responsável alegou ao g1 que ainda não foram citados na ação civil pública, mas que, quando citados, "apresentarão sua defesa nos autos, com os esclarecimentos e documentos pertinentes à apuração dos fatos". Também apontam que as alegações formuladas na ação dependem de apuração judicial e não devem ser tratadas como fatos definitivamente comprovados ou como condenação antecipada dos envolvidos.
Como funcionava o esquema
De acordo com a ação, a clínica atraía principalmente pessoas de baixa renda e com pouca escolaridade para contratar tratamentos odontológicos. No momento da contratação, os pacientes assinavam diversos documentos e, entre eles, um termo que indicava a conclusão do tratamento, mesmo antes dos procedimentos serem realizados.
Os órgãos afirmam que muitos clientes enfrentaram problemas como cancelamento de consultas, demora nos atendimentos, tratamentos incompletos e, principalmente, prejuízos à saúde bucal. Com isso, parte deles desistia de continuar o tratamento e deixava de pagar as parcelas.
Diante da desistência, a clínica usava os documentos assinados pelos pacientes para entrar com processos de cobrança na Justiça e exigir o pagamento dos contratos. Para o MPRO e a DPE-RO, a prática resultou em milhares de ações judiciais movidas contra consumidores.
De acordo com a denúncia, José Eduardo Barbosa Barros, dono da franquia em Porto Velho, está entre os maiores autores de ações judiciais em Rondônia. Dados do Painel de Grandes Litigantes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que a clínica ocupa a 8ª posição no ranking, com 3.243 processos pendentes, um volume superior ao registrado por Municípios como Rolim de Moura e Cacoal.
Foram identificados em nome do cirurgião-dentista mais de 1,2 mil processos ativos de cobrança e execução de título extrajudicial contra pacientes e outros 2,3 mil processos já baixados ou arquivados, também decorrentes de cobranças contratuais.
Já a franqueadora é denunciada pelo modelo de gestão, por contratos utilizados nas unidades e pela publicidade da marca, além de se beneficiar financeiramente da operação da clínica em Porto Velho. Os órgãos afirmam ainda que a empresa já foi alvo de outras ações de defesa do consumidor em outros estados.
Os pedidos da ação
Na ação, o MPRO e a DPE-RO pedem que seja determinada a suspensão imediata das ações de execução e cobrança ajuizadas pela Odonto Excellence, até o julgamento da Ação Civil Pública. Os órgãos também pedem que a Justiça declare inválidas algumas cláusulas dos contratos utilizados pela clínica.
Segundo os órgãos, as cláusulas seriam abusivas por responsabilizar os pacientes pelo abandono do tratamento após faltas ou atraso no pagamento, retirar garantias sobre os procedimentos realizados e exigir o pagamento integral de tratamentos mesmo quando o serviço não foi concluído.
Em caráter de urgência, o MPRO e a DPE-RO também pedem a proibição do ajuizamento de novas ações baseadas nas cláusulas questionadas e o fim da exigência de assinatura antecipada dos termos de conclusão. Os órgãos também solicitam que os consumidores afetados não sejam incluídos em cadastros de inadimplentes devido as dívidas relacionadas aos tratamentos.
A ação também pede que a clínica seja responsável por apresentar provas de que realizou os tratamentos corretamente e de que os pacientes concordaram com os procedimentos de forma válida. O pedido leva em conta a dificuldade dos consumidores em reunir informações e conhecimentos técnicos para se defender, já que, segundo o documento, muitos têm baixa renda e pouca escolaridade.
No pedido final, a ação requer o ressarcimento dos valores cobrados indevidamente dos consumidores e a condenação da clínica e da franqueadora ao pagamento de indenização por danos morais coletivos. A ação foi ajuizada com valor de causa de R$ 1 milhão.
Fonte: G1
